Sexta-feira, 6 de Maio de 2011

"It's not time for lone riders", diz o especialista em Napoleão

Dominique de Villepin durante a sua apresentação

 

Dominique de Villepin, já referenciado nos Cables from Estoril, encerrou em grande nível as sessões desta manhã, demonstrando porque é que o seu arqui-inimigo, o Presidente Nicolas Sarkozy, tem razões para temer uma possível candidatura presidencial no próximo ano daquele especialista em Napoleão.

 

Villepin é o “diplomata” por excelência. Hábil, bem falante, uma figura irrepreensível, culto, com obra publicado, cativante e sofisticadamente maquiavélico. A tal ponto, que o autor destas linhas diria que Villepin aproveitou o palco do Estoril para ensaiar um possível discurso eleitoral, por modo a conquistar as mentes e os corações dos franceses, cada vez mais descontentes com a política.

 

Embora Villepin seja um político profissional, percebe que esta classe profissional é cada vez menos repeitada pelos cidadãos, por isso, foi com firmeza que apelou à emoção da audiência quando disse que “os políticos têm sido um desastre nestes últimos anos na Europa”.

 

O resultado foi imediato, arrancando aplausos à plateia e, quem sabe, perspectivando o tom que poderá utilizar para amealhar votos num eventual embate eleitoral em França.

 

Villepin veio ao Estoril para falar sobre os “desafios actuais da construção europeia” e não se desviou desse propósito, adoptando um registo bastante crítico ao posicionamento da Europa no mundo, sobretudo no que diz respeito à relação com África, um palco que outros países têm estado a aproveitar, tais como a China ou o Brasil.

 

“Nós somos completamente estúpidos”, disse Villepin, precisamente pelo facto de países como Portugal, França ou Itália conhecerem África como ninguém, mas não capitalizarem esse conhecimento em prol do reforço das relações entre aquele continente e a Europa.

 

Essa estupidez estende-se à forma de como os Estados europeus parecem lidar com os grandes desafios que têm pela frente, já que continuam a ter uma abordagem egoísta e isolada. Por isso avisa: “It’s not time for lone riders.”

 

publicado por Alexandre Guerra às 15:13
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"Nato is not the solution"

A intervenção já estava a terminar quando Dominique de Villepin afirmou que a Nato não é a solução para os problemas de defesa da Europa e fez a apologia de uma força comum do continente. O antigo Primeiro-ministro francês veio ao Estoril para defender a sua visão da Europa, que para ele atravessa uma grave crise. Na linha gaulista de Chirac ou De Gaulle, Villepin reafirmou que a sua visão é bastante diferente do actual Presidente Nicolas Sarkozy. Não criticou directamente o seu arqui-rival da direita francesa, mas chegou a abordar o populismo que atravessa a Europa, nomeadamente na França. A ideia com que fiquei do seu discurso é que está pronto para entrar nas presidenciais, isto se conseguir ultrapassar o Clearsteam Affair, como referiu aqui o Alexandre. Mas vai ser um osso duro de roer para Sarkozy no centro político. 

 

Villepin é um político culto e conhecedor do mundo. Ninguém discutirá isso. Estando em Portugal, falou de Fernando Pessoa, um dos seus poetas preferidos, dos Lusíadas e da epopeia dos Descobrimentos, e ainda do Terramoto de 1755 e do que significou para a época das luzes. Além disso, mostrou-se um profundo conhecedor dos problemas que o nosso país atravessa, conseguindo exemplificar tudo isso ao longo da sua intervenção. 

 

Mas este foi um discurso virado para a Europa e para o Mundo. Falou dos problemas económicos e da crise financeira que afecta o continente europeu, abordou a questão do aquecimento global, para ele um dos sintomas do falhanço global da liderança europeia e também do terrorismo e das dificuldades que existem ao seu combate. A emigração e os problemas demográficos que a Europa atravessa também foram um dos temas, e também aqui se viu uma diferença em relação a Sarkozy. Defendeu um projecto europeu único, capaz de oferecer respostas aos problemas das diferentes regiões com relações com a Europa: a leste, a Rússia e Ucrânia; a sul e a sudeste, Magrebe, Africa negra e Médio Oriente; por fim, a América Latina. Curiosamente, ou talvez não, os Estados Unidos quase não estiveram presentes, mostrando que continua como um dos políticos franceses com menores afinidades com as relações transatlânticas. A própria citação que incluo no título deste post é uma evidência disso. 

 

Foi uma mensagem crítica que culminou com a frase bastante popular, aliás uma das poucas que arrancou palmas na audiência: "os políticos europeus têm sido um desastre". A Europa está em crise, não tem liderança nem mensagem. Acredito que Villepin tem razão. Mas estava melhor quando ele teve responsabilidades directas, primeiro como ministro dos Negócios Estrangeiros e do Interior, e depois como Primeiro-ministro francês?

publicado por Nuno Gouveia às 13:09
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Dominique de Villepin chega ao Estoril novamente ensombrado pelo caso Clearstream

Dominique de Villepin/Foto:AP/Michel Euler

 

Dominique de Villepin, antigo primeiro-ministro francês e figura destacada do espectro político do centro-direita, chega ao Estoril para falar sobre os desafios actuais da construção europeia”, numa altura em que volta a ser “perseguido” pelo polémico caso Clearstream, que o obrigou a sentar-se no banco dos réus em 2004, tendo, no entanto, sido ilibado das quatro acusações que recaíam sobre si.

 

Villepin tinha sido acusado por ter permitido que continuasse a circular uma lista que alegadamente saberia ser falsa, com nomes de inúmeras personalidades políticas erradamente associadas a contas no banco luxemburguês Clearstream respeitantes a subornos de negócios de armamento, nomeadamente, a venda de fragatas francesas a Taiwan.

 

Mais tarde soube-se que foi um auditor estagiário da Clearstream, Florian Bourge, e o jornalista Denis Robert que forneceram o documento a Jean Louis Gergorin, vice-presidente da EADS, e a Imad Lahoud, um brilhante matemático.  As listas foram dadas a conhecer na altura a Villepin, então ministro dos Negócios Estrangeiros, que ordenou ao responsável da EADS que as entregasse à justiça.

 

Um dos nomes era o de Nicolas Sarkozy, o que levantou de imediato várias teorias, que apontavam para um lado mais maquiavélico de Villepin, visto que emergiu a grande dúvida, e que ainda hoje certamente paira sobre muitos franceses, em saber se este tinha conhecimento da falsidade da lista e se, propositadamente, ordenou o seu envio para as autoridades como forma de prejudicar o seu rival.

 

Relembre-se que na altura, começava-se a falar de possíveis candidaturas presidenciais para 2007 e de imediato surgiram várias teorias de que o aparecimento da lista serviria os interesses de Villepin para comprometer e denegrir a imagem de Sarkozy, afastando-o, assim, de uma potencial candidatura no campo da direita.

 

O autor destas linhas recorda que acompanhou este caso com interesse e surpresa pelo facto de Villepin, tido como um diplomata elegante, homem de cultura e autor de vários livros sobre Napoleão, estar então envolvido em alegados “esquemas” que mais facilmente seriam conotados com Sarkozy.

 

Villepin acabou por ser ilibado, mas houve outros réus que não tiveram a mesma sorte. Sorte, essa, que poderá também acabar para Villepin, já que o assunto volta a ganhar relevância, com o Ministério Público a recorrer e a obrigar o antigo primeiro-ministro a prestar novamente declarações no âmbito deste processo.

 

Com eleições presidenciais para o ano e tendo Villepin criado um novo partido depois de ter deixado o UMP (centro-direita) para, muito provavelmente, apresentar uma candidatura ao Eliseu, é possível que o reacendimento deste caso lhe possa provocar alguns dissabores.

 

Algo que seria do agrado de Sarkozy, uma vez que as sondagens indicam que Villepin poderá ter 5 por cento na primeira volta das eleições, um valor que pode ser suficiente para complicar a vida ao actual Presidente, remetendo-o, eventualmente, para um terceiro lugar, atrás de um candidato socialista e, hipoteticamente, de Marine Le Pen, bem posicionada na corrida eleitoral. Se este cenário se verificasse, Sarkozy ficaria afastado da segunda volta.

 

Alguns analistas dizem que o recurso do Ministério Público pode ter grandes implicações nas candidaturas à direita, e apesar da imprensa referir que os dois arqui-inimigos possam estar mais próximos, a verdade é que a rivalidade entre Villepin e Sarkozy vem de há muito, quando ainda se discutia sobre quem seria o sucessor de Jacques Chirac no UMP.

 

Neste momento, é ainda difícil saber o quão este novo julgamento do caso Clearstream afectará a imagem de Villepin, no entanto, deverá ser um factor determinante na decisão de avançar, ou não, para uma candidatura presidencial.

 

Razões mais do que suficientes para que Villepin chegue ao Estoril com mais em que pensar do que propriamente nos “desafios actuais da construção europeia”.

 

publicado por Alexandre Guerra às 01:55
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