Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Equilíbrio no discurso de Dean

 

 

Howard é Dean é um “proud liberal”, como ele próprio se intitulou, mas veio ao Estoril com uma mensagem mais centrista do que se poderia esperar. Apesar de ser um dos membros mais destacados da esquerda americana, defendeu que é urgente o equilíbrio dos orçamentos e cortes nas despesas sociais, como na saúde ou nas reformas. Mas também defendeu um aumento de impostos, e no caso americano, cortes no orçamento da defesa. Os governos gastam mais do que têm e isso é inaceitável, defendeu Dean. No entanto o antigo candidato presidencial não responsabilizou apenas os políticos pela crise financeira e ressalvou que também os cidadãos são culpados, pois além de serem os que elegem os políticos, também eles vivem acima das suas possibilidades. O inicio da sua intervenção foi ainda marcada pelos parabéns que endereçou o governo português pelo acordo que alcançou sobre a ajuda externa.

 

Fez rasgados elogios ao projecto da União Europeia, que comparou à Revolução Americana e ao Euro, que adjectivou de uma “extraordinária invenção”. Aliás, os elogios à Europa no mundo foram uma constante na intervenção de Dean, nomeadamente na defesa dos direitos humanos e na ajuda aos países em desenvolvimento. Uma parte que terá agradado à audiência e todos os europeístas convictos. Também gostei de ouvir o elogio à evolução de Portugal e da vizinha Espanha desde que nos livramos das ditaduras, bem como dos países de leste que emergiram do jugo comunista e que abraçaram a democracia e o capitalismo. Sinto-me também na obrigação de dar destaque ao elogio que fez ao capitalismo, "a melhor invenção da história", apesar de ter deixado algumas críticas ao sistema bancário e à falta de regulação que, segundo ele, existe nos Estados Unidos e na Europa.

 

A sua intervenção no Estoril foi sóbria, virada para o mundo e os desafios globais. E como sempre num político americano, a sua mensagem foi de optimismo e de confiança no futuro, desafiando os europeus a seguirem o seu exemplo. Mas não deixou de falar do seu país. Dean reafirmou que para os Estados Unidos equilibrarem o Orçamento Federal será preciso ambos os partidos do sistema político chegarem a um consenso: redução nas despesas da saúde e segurança social e aumento de impostos para os mais ricos e cortes no orçamento da defesa. Provavelmente não estará muito longe do que vai suceder. A dúvida é se será concretizado antes das eleições presidenciais de 2012. 

 

Não é muito comum em políticos americanos, mas Howard Dean deixou algumas críticas ao seu próprio país. Normalmente estas ficam reservadas para solo americano, mas como Dean não está propriamente no activo nem se prevê que regresse tão cedo, e talvez por isso, lançou algumas aos EUA na questão dos direitos humanos e na política de Defesa. Dean considerou que é necessário menos investimento na defesa e mais na ajuda aos países sub-desenvolvidos. Questionado por José Manuel Fernandes, antigo director do Público sobre a importância que Guantanamo teve para a captura de Bin Laden, Dean fugiu um pouco à questão e falou sobre a própria prisão. Disse que Obama, enquanto candidato disse que a fecharia, mas a realidade é bem diferente, e é preciso tomar decisões difíceis como Presidente. Ressalvou que acredita que Obama não a teria aberto, mas agora certamente não a irá mandar encerrar. Afirmou mesmo que o fecho de Guatanamo poderia contribuir para a perda de imensas vidas. 

 

Por fim uma nota populista, já na fase das perguntas: Dean disse que se fosse membro do Parlamento Europeu não aceitaria salário este ano, para dar o exemplo aos cidadãos. Será que faria a mesma proposta ao Congresso americano?

publicado por Nuno Gouveia às 18:20
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