Sábado, 30 de Abril de 2011

A sindrome da barrigada de queijo

Os economistas e os políticos têm um problema grave de memória - no caso, de memória histórica. Desde pequeninos que comeram muito queijo. Sofrem da síndrome dessas barrigadas de queijo.

 

Por isso reagem, zangados, quando se vem a terreiro com a mania da história. Coisas do baú, velharias - e dão, sempre, uma boa gargalhada de desprezo.

 

Vem isto a propósito da crise da dívida soberana, esta surpresa que surgiu na cauda da Grande Recessão de 2008 e 2009.

 

Ao fim e ao cabo, não seria surpresa nenhuma se os decisores tivessem ligado ao que Kenneth Rogoff - um dos académicos do Clube das Cassandras, a que já me referi - e Carmen Reinhart divulgaram estudando centenas de anos de loucuras financeiras.

 

O que é que dizem os padrões da história?

 

Na cauda das grandes crises financeiras e das grandes recessões irrompem as crises de dívida soberana nos elos mais fracos. E batem à porte de todos.

 

«Isso é impossível em países desenvolvidos. Ainda para mais numa zona monetária», logo reagiram os desmemoriados, ofendidos com tal hipótese. O coro destes desmemoriados durou enquanto a realidade não lhes ruiu as convicções.

 

A Islândia era um paraíso gelado - e de um momento para o outro ficou à beira da bancarrota. Depois o paradísiaco Dubai - o médio oriente dos VIPs.

 

Bom, a Grécia, enfim, nunca foi um "milagre". A não ser no sol, nas ilhas, na cor dos mares, na música, no partir dos pratos - ah, e, no facto, de ter sido o berço da nossa civilização.

 

Mas eis que a pessonha ataca o modelo dos modelos dos desmemoriados, a Irlanda.

 

Aí os desmemoriados começaram a vacilar - mas, enfim, é parte de uma ilha, pouca coisa.

 

Bateu, depois, à porta aqui do nosso burgo - mas nunca fomos nenhum milagre económico e somos, apenas, uma franja na ponta mais ocidental.

 

Os desmemoriados rezam, agora, para que a cauda não bata em alguns países mais avantajados.

 

Entretanto, apesar de começarem a estar possuídos de dúvidas, continuam sem ler o Rogoff e a Reinhart. Espanha, Portugal, Grécia, Alemanha fazem parte da galeria de exemplos do passado. Uma maçada.

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Valia a pena lerem, já agora. Aqui fica o título: "This Time is Different".

 

Uma entrevitsa com Carmen Reinhart pode ser lida em: http://janelanaweb.com/novidades/%E2%80%9Cbancarrota-e-possivel-em-paises-ricos%E2%80%9D-carmen-reinhart/

publicado por jnrodrigues às 23:46
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Bem vindo Dr. Doom

Uma das figuras do "Clube das Cassandras" vem ao Estoril - não necessariamente para jogar no casino. Alcunharam-no de Dr. Doom - roubando o cromo à banda desenhada.

 

Anos a fio Roubini foi amaldiçoado porque falava de um estoiro no horizonte. A alegre euforia de crescimento e especulação financeira dos anos 1990 e 2000 era como que uma barriga de aluguer - não só de um ecossistema financista que se consolidou, mas do seu contrário.

 

Os sinais que entretanto foram surgindo acabaram por ser ignorados, ou menosprezados.

 

Roubini tinha como companheiros de clube homens que estavam dentro do sistema financeiro - como William White, economista-chefe no BIS na época, e Raghuram Rajan, economista-chefe do FMI entre 2003 e 2007.

 

White disse aos banqueiros que se reuniam em Basileia que o sistema caminhava para o que os académicos chamavam de "momento Minsky", do nome de Hyman Minsky, um economista americano que falecere em 1996. Trocado por miúdos, o momento em que a bolha se transforma no seu calvário.

 

Rajan, por seu lado, teve a coragem de enfrentar a audiência selecta da reunião de primavera da Reserva Federal no ano em que Alan Greesnpan abandonou o cargo de presidente do banco central americano. Disse-lhes a mesma coisa, estragando a festa de despedida.

 

«Patetas» - é certamente o mimo menos duro que receberam.

 

A ideia de que o capitalismo financeiro tem dois gémeos que se revezam não é nova. Foi, de facto, Minsky que a recordou.

 

Em meados de 2007 o fantasma saiu das caves e regressou à luz do dia. Minsky, postumamente, foi redescoberto pelo mainstream dos economistas - mas já era tarde.

 

Dizem os economistas, agora, que foi uma das crises financeiras e recessões como jã não havia desde 1929-1933.

 

Mas o filme pode não ficar por aqui. A cauda deste abalo ainda não está toda de fora. A crise da dívida soberana surgiu no horizonte e começou pelas bordas - ainda nem sequer tocou no coração da bolha.

 

Reflectindo em voz alta, Rajan disse em conversa com o Expresso - publicada este fim de semana - que, "possivelmente" (com alguma cautela de cientista), o filme actual ainda não está concluído. A anterior longa vaga financista iniciada em 1860 andou em bolandas de 1890 a 1930.

 

Bem vindo Dr. Doom.

 

publicado por jnrodrigues às 21:01
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Um dos primeiros políticos revolucionários do século XXI

 

Howard Dean é um dos nomes que me suscita mais interesse entre aqueles que vão desfilar pelo Estoril. Não propriamente pelas ideias políticas que defende, até porque estou bem afastado da sua ideologia, mas pelo papel que inegavelmente já conquistou na história das campanhas presidenciais americanas. Certamente não será um dos temas que virá abordar ao Estoril, mas a sua campanha de 2004 assegurou um lugar nas corridas eleitorais mais memoráveis que o povo americano já assistiu. Pela primeira vez, em 2004, um candidato utilizou a Internet como peça central na sua estratégia de campanha. The Revolution will not be televised, de Joe Trippi, o seu campaign manager dessa eleição, é um fiel relato do que realmente aconteceu nessa histórica campanha.

 

Como foi possível que um obscuro governador do pequeno estado do Vermont emergisse, a certa altura, como o favorito para vencer as primárias democratas? Em Dezembro de 2003, a poucas semanas do caucus do Iowa, era o claro favorito, tendo mesmo recebido o apoio de Al Gore, então a maior estrela do Partido Democrata. Tudo devido à sua utilização revolucionária da Internet como meio de angariar fundos e voluntários, transmitindo uma mensagem de mudança para a sociedade americana. Além das centenas de milhares de apoiantes que conquistou na Internet, angariou mais de 100 milhões de dólares antes das primárias terem realmente começado. Não por acaso, muitos dos jovens que colaboraram com Dean em 2004 trabalharam com Barack Obama passado quatro anos. Obama seguiu o playbook de Dean, mas conseguiu transformar o apoio online no entusiasmo offline e em vitórias eleitorais. As sementes da vitória de Obama foram plantadas por Dean.

 

Howard Dean não conseguiu vencer as primárias, mas deu uma lição aos políticos: a Internet pode ser uma arma poderosa em ambientes eleitorais. A história da comunicação política é hoje incompleta sem o estudo desta insurgente campanha. Nenhum académico ou profissional de comunicação digital a desconhece. Mas a história de Dean não terminou em 2004. Depois disso foi chairman do Democratic National Committee, liderando a máquina democrata que venceu as eleições intercalares de 2006 e que culminou na eleição de Barack Obama passado dois anos. É este o homem que vai discursar no primeiro dia no Estoril.

publicado por Nuno Gouveia às 16:01
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Mais do que o "fim da História", valerá a pena ouvir falar Francis Fukuyama sobre o "último homem"

 

Das várias personalidades que vão estar nas Conferências do Estoril na próxima semana, e muitas delas de excepcional calibre político e intelectual, o autor destas linhas revela o seu primeiro “cable” ao admitir o seu particular interesse por Francis Fukuyama, aguardando com muita expectativa a apresentação deste filósofo político.

 

Ao contrário do que o leitor possa estar a imaginar, esta preferência não se deve à obra que o tornou célebre, O Fim da História e o Último Homem, mas antes ao trabalho que desenvolveu no ambito do estudo da problemática das novas biotecnologias nas sociedades pós-modernas.

 

É certo que Francis Fukuyama se celebrizou pela sua teoria determinista pós-Guerra Fria, no entanto, para quem conhece a obra de Kojève, Marx, Hegel ou, recuando ainda mais, de Políbio, percebe que nada de novo existia naquele paradigma e convicção de que o autor estava a viver um momento único de ruptura sistémica. A verdade é que já muitos outros tinham escrito sobre o “fim da história”, precisamente por acreditarem que também eles viviam naquele determinado momento da História uma época única de mudança de paradigma.

 

Seja como for, a parte mais interessante desse famoso livro de Fukuyama, e que muitos ignoraram ou nem se aperceberam, é aquela a que se refere ao “último homem”. Porque, é precisamente a partir deste pressuposto que aquele filósofo político parte para o seu estudo sobre o “mundo pós humano”, que resulta no fascinante livro, este sim, O Nosso Futuro Pós-Humano.

 

É importante relembrar que quando Francis Fukuyama falou no “fim da história”, apropriando-se de uma concepção determinista, admitiu mais tarde que a génese da destruição da sua tese se encontrava precisamente nas novas biotecnologias. A possibilidade de um “outro eu”, produto do Homem e não do livre arbítrio, faria emergir um mundo pós-humano, dando-se, assim, início a uma nova História.

 

Pela primeira vez, Deus deixara de ter a exclusividade para aniquilar a sua própria criação. O Homem passava a ter essa possibilidade, o governante passava a deter o poder para destruir a Humanidade.

 

O livro O Nosso Futuro Pós-Humano, publicado em 2002, veio reflectir precisamente sobre a problemática das novas biotecnologias, nomeadamente, ao nível do seu impacto nas sociedades pós-modernas, algo com que os decisores políticos até então jamais tinham sido confrontados.

 

Este é um debate que era apenas o produto da imaginação de alguns homens, como por exemplo Aldous Huxley, que no seu Admirável Mundo Novo recorre ao primado da ciência e tecnologia para “acabar” com a Humanidade, tal como a sempre se conhece, para mergulhar num mundo pós-Humano.

 

Aquela obra foi escrita há, sensivelmente, 70 anos. Hoje, o mundo pós-humano de Francis Fukuyama não é fruto da sua imaginação, mas sim resultado de uma análise e investigação da realidade pós-moderna.

 

Com os instrumentos que começam a ficar ao dispor dos cientistas capazes de desafiar a ordem instituída, Fukuyama enfatiza as diferenças entre uma sociedade criada a partir do livre arbítrio, ou daquilo que chama de “lotaria genética”, e uma sociedade erigida com base em modelos pré-definidos, onde nada é deixado ao acaso. “Livre arbítrio vs determinismo (genético)” poderá vir a tornar-se uma das equações mais fracturantes e polémicas no debate politico e sociológico dos próximos anos. E Fukuyama ajuda a explicar porquê.

 

publicado por Alexandre Guerra às 00:04
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Quinta-feira, 28 de Abril de 2011

Bem-vindos

 

As Conferências do Estoril de 2011 apresentam-se como uma verdadeira janela para a discussão dos problemas e desafios mais prementes que o mundo enfrenta na actualidade. O leque dos convidados e dos temas em debate são abrangentes e apresentam uma qualidade inegável. Por isso, eu, o Alexandre Guerra e o Jorge Nascimento Rodrigues, juntamo-nos para criar este blogue. Terá uma duração limitada e destina-se a acompanhar esta segunda edição das Conferências do Estoril, bem como lançar alguns tópicos para debate sobre o complexo mundo das relações internacionais. 

publicado por Nuno Gouveia às 13:09
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