Sexta-feira, 29 de Abril de 2011

Mais do que o "fim da História", valerá a pena ouvir falar Francis Fukuyama sobre o "último homem"

 

Das várias personalidades que vão estar nas Conferências do Estoril na próxima semana, e muitas delas de excepcional calibre político e intelectual, o autor destas linhas revela o seu primeiro “cable” ao admitir o seu particular interesse por Francis Fukuyama, aguardando com muita expectativa a apresentação deste filósofo político.

 

Ao contrário do que o leitor possa estar a imaginar, esta preferência não se deve à obra que o tornou célebre, O Fim da História e o Último Homem, mas antes ao trabalho que desenvolveu no ambito do estudo da problemática das novas biotecnologias nas sociedades pós-modernas.

 

É certo que Francis Fukuyama se celebrizou pela sua teoria determinista pós-Guerra Fria, no entanto, para quem conhece a obra de Kojève, Marx, Hegel ou, recuando ainda mais, de Políbio, percebe que nada de novo existia naquele paradigma e convicção de que o autor estava a viver um momento único de ruptura sistémica. A verdade é que já muitos outros tinham escrito sobre o “fim da história”, precisamente por acreditarem que também eles viviam naquele determinado momento da História uma época única de mudança de paradigma.

 

Seja como for, a parte mais interessante desse famoso livro de Fukuyama, e que muitos ignoraram ou nem se aperceberam, é aquela a que se refere ao “último homem”. Porque, é precisamente a partir deste pressuposto que aquele filósofo político parte para o seu estudo sobre o “mundo pós humano”, que resulta no fascinante livro, este sim, O Nosso Futuro Pós-Humano.

 

É importante relembrar que quando Francis Fukuyama falou no “fim da história”, apropriando-se de uma concepção determinista, admitiu mais tarde que a génese da destruição da sua tese se encontrava precisamente nas novas biotecnologias. A possibilidade de um “outro eu”, produto do Homem e não do livre arbítrio, faria emergir um mundo pós-humano, dando-se, assim, início a uma nova História.

 

Pela primeira vez, Deus deixara de ter a exclusividade para aniquilar a sua própria criação. O Homem passava a ter essa possibilidade, o governante passava a deter o poder para destruir a Humanidade.

 

O livro O Nosso Futuro Pós-Humano, publicado em 2002, veio reflectir precisamente sobre a problemática das novas biotecnologias, nomeadamente, ao nível do seu impacto nas sociedades pós-modernas, algo com que os decisores políticos até então jamais tinham sido confrontados.

 

Este é um debate que era apenas o produto da imaginação de alguns homens, como por exemplo Aldous Huxley, que no seu Admirável Mundo Novo recorre ao primado da ciência e tecnologia para “acabar” com a Humanidade, tal como a sempre se conhece, para mergulhar num mundo pós-Humano.

 

Aquela obra foi escrita há, sensivelmente, 70 anos. Hoje, o mundo pós-humano de Francis Fukuyama não é fruto da sua imaginação, mas sim resultado de uma análise e investigação da realidade pós-moderna.

 

Com os instrumentos que começam a ficar ao dispor dos cientistas capazes de desafiar a ordem instituída, Fukuyama enfatiza as diferenças entre uma sociedade criada a partir do livre arbítrio, ou daquilo que chama de “lotaria genética”, e uma sociedade erigida com base em modelos pré-definidos, onde nada é deixado ao acaso. “Livre arbítrio vs determinismo (genético)” poderá vir a tornar-se uma das equações mais fracturantes e polémicas no debate politico e sociológico dos próximos anos. E Fukuyama ajuda a explicar porquê.

 

publicado por Alexandre Guerra às 00:04
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